sábado, 3 de outubro de 2009

Clouding up





Não fosse a poeira que se desprendia dos meus cabelos e pairava no ar, não se faria notar a minha queda, assim como não se notam as crenças coletivas, os jabás e as mensagens subliminares. Não encontrava o pé perdido ali no escuro, apartado de mim aquele sapato vermelho de que tanto gostava. "Você não devia fazer isso...", disse minha irmã ao me ver virar de uma só vez a quarta taça, poucos minutos antes Eu não gosto que me digam o que fazer, ela bem sabe. Devolvi a taça à mesa com toda força. É minha única lembrança clara daquela noite.

Maldita seja você, Veuve Clicquot, pensei, tentando puxar para baixo o devassável mini vestido com o qual eu nem deveria ter saído, se tivesse algum juízo. Maldita seja você, pedra no meu caminho, que me levou ao chão ali do jardim, chill out. Fingindo não ter notado o filete vermelho que escorria pela palma da mão esquerda, calcei o sapato que acabara por encontrar. O salto preso entre as pedras que levavam de volta ao American Bar, onde um DJ de porta de festa despejava sua música ruim, a mais de 100 decibéis, por sobre a pista mal iluminada e escorregadia de tanta bebida derramada.

Mais um pouco eu virava abóbora, sem direito à carruagem. Fiz sinal para o primeiro táxi que passou vazio. A 'Lei Seca' parece funcionar (ou talvez fosse azar) e os torna escassos em noite de festa. Joguei-me no banco de trás, escorregando desajeitadamente, como só uma pessoa ébria é capaz de escorregar. "Por favor, pega a terceira à direita e depois segue toda vida", eu disse fechando os olhos e recostando meu corpo no couro do assento. Desliguei o telefone, depois de rejeitar mais uma chamada da minha irmã e não ler as mensagens recebidas sem parar. "Dá só uma paradinha no Cervantes pra mim, eu pago teu sanduíche." A luz do domingo já começava a despontar na Lagoa.



Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Bruno Dayan

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Em trânsito



Contornei a rotatória e entrei pela mão dupla daquela mesma rua que me levara até ali. Buzinei na traseira de um motorista distraído, com suas crianças, dúzias de sacolas de supermercado e o celular, que ele segurava, desajeitadamente, entre o ombro esquerdo e a orelha. O domingo de sol fazia arder o asfalto, a areia e a minha garganta seca. Coloquei a garrafa entre as coxas e girei a tampa, derramando água gelada goela abaixo.

No sinal o menino, o malabares e sua cara de fome. Eu fiz sinal que não queria sua caixinha sobre o meu capô e que não, não iria dar nenhum dinheiro a ele. Se desse dinheiro a cada um deles, eu trabalharia só para sustentá-los, pensei, aumentando o volume do rádio. Levei uma fechada de uma perua importada, made in Japan, que saiu - sem nem dar seta - de uma fila dupla que começava na esquina e seguia até a porta do restaurante descolado do momento, onde manobristas agitavam chaves e desfilavam uniformes muito quentes para o sol do meio dia.

Um guardinha solitário anotava muitas placas, logo adiante, imerso em seu ofício de coibir estacionamentos irregulares e remediar pequenos acidentes. Vejo ele apequenar-se no retrovisor, à medida que avanço - dentro do limite da velocidade permitida - pela avenida principal, ladeada por ônibus de turistas, kombis de ambulantes e toda sorte de maus motoristas por metro quadrado que podem caber em um domingo. No meu porta-malas a cadeira de mil poses e o sombrero colorido balançam tranquilos à espera do seu lugar ao sol.

Texto: Patricia Coelho

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Temperança



"Me passa o saleiro", ele disse sem erguer os olhos, cortando a carne em pequenos pedaços. Coloquei um pouco de sal na palma da mão esquerda, antes de estender o pequeno cilindro prateado, colocando-o bem diante dele. Joguei para trás o pó umedecido (nunca lembro de colocar arroz dentro do pote) por sobre o ombro. Ele não viu, nunca via... já não fazia diferença, por conveniência ou conivência.

Os meus sentimentos invadiam a mesa posta do jantar, como as águas salgadas invadem a costa. Nunca se deve dar as costas para o mar, as ondas que tudo arrastam também trazem para a superfície aquilo que estava submerso. Sou muito temperamental para estar cercada de gente com tão mais temperamento do que eu, gente que ocupa tanto espaço. O cotovelo dele bateu outra vez no meu braço inerte.

O sal jogado entranhou-se nas frestas do assoalho e na sola dos meus sapatos, que rumavam decididos para a porta dos fundos. Ele perguntou se eu levava o casaco quando soltei a maçaneta ruidosamente. A voz parecia muito distante, como sempre parecera, talvez um pouco mais abafada agora. O casaco cobrindo minhas orelhas, alguns trocados no meu bolso e a vida recomeçando nas calçadas cobertas de neve, que logo se derreteria sob o sal.


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Lilya Corneli

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Mon p'tit éléphant



"Então está acabado. Eu não vou mais sentir tudo aquilo que se amplifica tanto em mim..." Antes fosse simples assim: está dito então está feito. Pertenço à quinta geração de prime donne da minha família, eu sou uma hipérbole (parafraseando Clarice). Tudo que me dói é dilacerante. Eu não me alegro, eu exulto. Quando eu saio, não volto nunca mais. "Eu não vou mais sentir", a quem eu quero enganar?

Apaguei o final da primeira frase: "Então está acabado...", o que vem depois? Não sei escrever cartas, nem mesmo sei explicar o que sinto... Oh, no! I'm not supposed to feel. Convencionou-se que prime donne são irritáveis e donas de egos imensos (se ao menos eu cantasse com uma delas, mas não é esse o caso). Aborreço-me por muito pouco, como nessa hora em que o reservatório da tinteiro está quase seco.

"Eu prometo ser boazinha", isso costumava funcionar muito bem no tempo em que eu ainda usava maria-chiquinhas. Ninguém pode levar à sério uma carta que começa assim, eu imagino, caminhando até a estante para buscar a tinta preta. Tudo sempre acaba na hora errada... a tinta, o cigarro, a gasolina, o papel higiênico, o amor. Encontro o último frasco de Caran d'Ache na última gaveta, rachado no fundo, manchando todas as fotos esquecidas de nós dois.


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Elena Kalis
 
Tema para Blogger Denim 233 por Darren Delaye
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