domingo, 15 de novembro de 2009

À Sombra



A fatalidade e a fragilidade das coisas ficou em mim, como a sombra da geladeira vermelha que tomava o chão da copa, quando o sol se debruçava no quintal da casa da vó. Eram as férias de julho. Não era então essa letargia que tomou conta de mim tempos depois. Não havia então esse medo latejando nas minhas têmporas com tamanha insistência; ainda havia ali o "nada me faltará". Um dia a geladeira pifou de uma vez e foi logo substituída por uma outra, dessas modernas que toda gente tem. Deveria ser proibido dizer que as pessoas são substituíveis. Nada é.
Passo uma outra vez a mão no retrato empoeirado, antes devolvê-lo ao criado-mudo. A casa fechada cheirava mofo e abandono, onde antes predominara o perfume do famoso pudim de nozes, sendo assado no forno a lenha, que misturava-se ao forte odor das bisnagas de tinta óleo, abertas sobre a bancada de madeira onde a vó costumava pintar. Ficava horas, imóvel ao seu lado, observando os movimentos suaves e meticulosos, sentindo sua respiração branda e seu hálito morno de café. Os pincéis ressecados, esquecidos sobre o jornal da semana passada, pintavam um quadro muito diferente do que eu me habituara a ver.
O caminhão que eu contratara encostou na entrada lateral, antes do horário combinado. Logo depois chegou o padre, com seus dois ajudantes, para levar as doações que fiz para a paróquia. Fiquei apenas com o terço trazido por ela do Santuário de Fátima, de que tanto gostava. Ver minhas lembranças sendo carregadas, assim tão descuidadamente por pessoas que eu não conhecia, abriu um buraco muito fundo no meu peito, desses em que caberia o caminhão, o padre, os ajudantes e toda dor do mundo. Dois meninos vinham carregando a geladeira vermelha, fiz sinal com a cabeça para que colocassem na caçamba da minha caminhonete. Hoje a geladeira faz sombra no meu quintal, suas prateleiras funcionando como suporte para pequenos vasos de violeta.


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Umut Akay

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Em trânsito




Contornei a rotatória e entrei pela mão dupla daquela mesma rua que me levara até ali. Buzinei na traseira de um motorista distraído, com suas crianças, dúzias de sacolas de supermercado e o celular, que ele segurava, desajeitadamente, entre o ombro esquerdo e a orelha. O domingo de sol fazia arder o asfalto, a areia e a minha garganta seca. Coloquei a garrafa entre as coxas e girei a tampa, derramando água gelada goela abaixo.

No sinal o menino, o malabares e sua cara de fome. Eu fiz sinal que não queria sua caixinha sobre o meu capô e que não, não iria dar nenhum dinheiro a ele. Se desse dinheiro a cada um deles, eu trabalharia só para sustentá-los, pensei, aumentando o volume do rádio. Levei uma fechada de uma perua importada, made in Japan, que saiu - sem nem dar seta - de uma fila dupla que começava na esquina e seguia até a porta do restaurante descolado do momento, onde manobristas agitavam chaves e desfilavam uniformes muito quentes para o sol do meio dia.

Um guardinha solitário anotava muitas placas, logo adiante, imerso em seu ofício de coibir estacionamentos irregulares e remediar pequenos acidentes. Vejo ele apequenar-se no retrovisor, à medida que avanço - dentro do limite da velocidade permitida - pela avenida principal, ladeada por ônibus de turistas, kombis de ambulantes e toda sorte de maus motoristas por metro quadrado que podem caber em um domingo. No meu porta-malas a cadeira de mil poses e o sombrero colorido balançam tranquilos à espera do seu lugar ao sol.

Texto: Patricia Coelho

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Temperança



"Me passa o saleiro", ele disse sem erguer os olhos, cortando a carne em pequenos pedaços. Coloquei um pouco de sal na palma da mão esquerda, antes de estender o pequeno cilindro prateado, colocando-o bem diante dele. Joguei para trás o pó umedecido (nunca lembro de colocar arroz dentro do pote) por sobre o ombro. Ele não viu, nunca via... já não fazia diferença, por conveniência ou conivência.

Os meus sentimentos invadiam a mesa posta do jantar, como as águas salgadas invadem a costa. Nunca se deve dar as costas para o mar, as ondas que tudo arrastam também trazem para a superfície aquilo que estava submerso. Sou muito temperamental para estar cercada de gente com tão mais temperamento do que eu, gente que ocupa tanto espaço. O cotovelo dele bateu outra vez no meu braço inerte.

O sal jogado entranhou-se nas frestas do assoalho e na sola dos meus sapatos, que rumavam decididos para a porta dos fundos. Ele perguntou se eu levava o casaco quando soltei a maçaneta ruidosamente. A voz parecia muito distante, como sempre parecera, talvez um pouco mais abafada agora. O casaco cobrindo minhas orelhas, alguns trocados no meu bolso e a vida recomeçando nas calçadas cobertas de neve, que logo se derreteria sob o sal.


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Lilya Corneli

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Mon p'tit éléphant



"Então está acabado. Eu não vou mais sentir tudo aquilo que se amplifica tanto em mim..." Antes fosse simples assim: está dito então está feito. Pertenço à quinta geração de prime donne da minha família, eu sou uma hipérbole (parafraseando Clarice). Tudo que me dói é dilacerante. Eu não me alegro, eu exulto. Quando eu saio, não volto nunca mais. "Eu não vou mais sentir", a quem eu quero enganar?

Apaguei o final da primeira frase: "Então está acabado...", o que vem depois? Não sei escrever cartas, nem mesmo sei explicar o que sinto... Oh, no! I'm not supposed to feel. Convencionou-se que prime donne são irritáveis e donas de egos imensos (se ao menos eu cantasse com uma delas, mas não é esse o caso). Aborreço-me por muito pouco, como nessa hora em que o reservatório da tinteiro está quase seco.

"Eu prometo ser boazinha", isso costumava funcionar muito bem no tempo em que eu ainda usava maria-chiquinhas. Ninguém pode levar à sério uma carta que começa assim, eu imagino, caminhando até a estante para buscar a tinta preta. Tudo sempre acaba na hora errada... a tinta, o cigarro, a gasolina, o papel higiênico, o amor. Encontro o último frasco de Caran d'Ache na última gaveta, rachado no fundo, manchando todas as fotos esquecidas de nós dois.


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Elena Kalis
 
Tema para Blogger Denim 233 por Darren Delaye
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