A fatalidade e a fragilidade das coisas ficou em mim, como a sombra da geladeira vermelha que tomava o chão da copa, quando o sol se debruçava no quintal da casa da vó. Eram as férias de julho. Não era então essa letargia que tomou conta de mim tempos depois. Não havia então esse medo latejando nas minhas têmporas com tamanha insistência; ainda havia ali o "nada me faltará". Um dia a geladeira pifou de uma vez e foi logo substituída por uma outra, dessas modernas que toda gente tem. Deveria ser proibido dizer que as pessoas são substituíveis. Nada é.
Passo uma outra vez a mão no retrato empoeirado, antes devolvê-lo ao criado-mudo. A casa fechada cheirava mofo e abandono, onde antes predominara o perfume do famoso pudim de nozes, sendo assado no forno a lenha, que misturava-se ao forte odor das bisnagas de tinta óleo, abertas sobre a bancada de madeira onde a vó costumava pintar. Ficava horas, imóvel ao seu lado, observando os movimentos suaves e meticulosos, sentindo sua respiração branda e seu hálito morno de café. Os pincéis ressecados, esquecidos sobre o jornal da semana passada, pintavam um quadro muito diferente do que eu me habituara a ver.
O caminhão que eu contratara encostou na entrada lateral, antes do horário combinado. Logo depois chegou o padre, com seus dois ajudantes, para levar as doações que fiz para a paróquia. Fiquei apenas com o terço trazido por ela do Santuário de Fátima, de que tanto gostava. Ver minhas lembranças sendo carregadas, assim tão descuidadamente por pessoas que eu não conhecia, abriu um buraco muito fundo no meu peito, desses em que caberia o caminhão, o padre, os ajudantes e toda dor do mundo. Dois meninos vinham carregando a geladeira vermelha, fiz sinal com a cabeça para que colocassem na caçamba da minha caminhonete. Hoje a geladeira faz sombra no meu quintal, suas prateleiras funcionando como suporte para pequenos vasos de violeta.
Texto: Patrícia Coelho















