Não fosse a poeira que se desprendia dos meus cabelos e pairava no ar, não se faria notar a minha queda, assim como não se notam as crenças coletivas, os jabás e as mensagens subliminares. Não encontrava o pé perdido ali no escuro, apartado de mim aquele sapato vermelho de que tanto gostava. "Você não devia fazer isso...", disse minha irmã ao me ver virar de uma só vez a quarta taça, poucos minutos antes Eu não gosto que me digam o que fazer, ela bem sabe. Devolvi a taça à mesa com toda força. É minha única lembrança clara daquela noite.
Maldita seja você, Veuve Clicquot, pensei, tentando puxar para baixo o devassável mini vestido com o qual eu nem deveria ter saído, se tivesse algum juízo. Maldita seja você, pedra no meu caminho, que me levou ao chão ali do jardim, chill out. Fingindo não ter notado o filete vermelho que escorria pela palma da mão esquerda, calcei o sapato que acabara por encontrar. O salto preso entre as pedras que levavam de volta ao American Bar, onde um DJ de porta de festa despejava sua música ruim, a mais de 100 decibéis, por sobre a pista mal iluminada e escorregadia de tanta bebida derramada.
Mais um pouco eu virava abóbora, sem direito à carruagem. Fiz sinal para o primeiro táxi que passou vazio. A 'Lei Seca' parece funcionar (ou talvez fosse azar) e os torna escassos em noite de festa. Joguei-me no banco de trás, escorregando desajeitadamente, como só uma pessoa ébria é capaz de escorregar. "Por favor, pega a terceira à direita e depois segue toda vida", eu disse fechando os olhos e recostando meu corpo no couro do assento. Desliguei o telefone, depois de rejeitar mais uma chamada da minha irmã e não ler as mensagens recebidas sem parar. "Dá só uma paradinha no Cervantes pra mim, eu pago teu sanduíche." A luz do domingo já começava a despontar na Lagoa.
Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Bruno Dayan















