Mito - μυθος



Então, bem na minha frente, a Estrada das Pedras Amarelas. Bastava seguir por ela. Go, little girl, go! As pessoas incentivam, sabe como é. Papai, mamãe, os irmãos e os coleguinhas.
Demora muito pra chegar no Mágico, gente? Alguém conhece um atalho? Eu queria muito saber, antes mesmo de pôr meu sapatinho de rubi sobre o primeiro paralelepípedo (que ainda leva acento, porque é proparoxítona).
Daí eu fui, né? Uma pessoa não pode pensar em se perder tendo um mapa nas mãos. O pessoal que incentiva ficaria desapontado. Eu ficaria desapontada.... E não dá tudo na mesma? Eles, eu.
Encontrei com esse cara estranho que estivera me observando por trás de uma moite, como ele mesmo me contou. Ele dizia coisas sem sentido. "Bruxa"? Não, ninguém me avisou sobre a buxa. Como assim "perigos da floresta"? Ninguém mencionou nada, não. Ele tinha olhos bem grandes e queria saber o que eu carregava na minha cestinha de viagem (preparada especialmente pelo pessoal que incentiva, para que o Mágico não pensasse que eu era uma morta de fome.).
Dispensei o maluco rapidinho e enfiei mais uma vez meu saltinho 15 por entre as pedras da cor do sol (para não ficar repetindo "amarelo" toda hora, é muito feio ficar repetindo palavras em um texto, afinal.). Lá pelas tantas eu vi passar correndo um menino dentuço, ele parecia muito atrasado. Talvez ele conhecesse um atalho pra Cidade de Esmeraldas, pensei (segundo o Houaiss, atalho é a "maneira de se conseguir alguma coisa em menos tempo ou com menos esforço do que por meios normais"... nada mal, né não?).
O menino, que tinha os dentes realmente grandes e o apelido de "coelho" (alguém adivinha a origem do apelido?), disse-me que para chegar ao castelo do Mágico na Cidade de Esmeraldas eu teria que seguir a Estrada das Pedras Amarelas, não ia rolar uma estradinha vicinal, ele garantiu. Depois disso sumiu-se em algum buraco na (já) noite escura da floresta.
Outro dia, enquanto dava uma lustrada no pisante carmim, o danado escapou da minha mão indo bater diretamente com a ponta do saltinho 15 no olho de um cara feio pra burro, que morava por ali. Ele veio tirar satisfações comigo, dizendo que se chamava Polifemo e era filho de um tal de Poseidon, numa daquelas de "você sabe com quem está falando?"... Eu dei de ombros e saí andando, enquanto ele berrava algo sobre se vingar.
Depois desse dia começou a chover e não parou mais. Deve ser praga daquele filho de Poseidon. Mas eu continuo caminhando, mesmo assim, porque o pessoal que incentiva não pode esperar em vão pelo retorno da filha pródiga à Fazenda dos Gale. O sapatinho já não é mais o mesmo, mas a vontade de chegar... Ah, essa!


"Todos nós de maneira consciente ou inconsciente vivemos segundo a nosso própria mitologia. E viver segundo um padrão mítico significa que tornamos conscientes as nossas origens pessoais e coletivas, que entendemos plenamente que não somos indivíduos independentes, mas que na verdade somos o resultado de milênios de amadurecimento e aculturamento."


Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Dorothy Gale

4 Chic Ways to Make an Enviable Fashion Set

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