Costado



Conta história nenhuma a cadeira vazia. Não deixei que nela sentasse mais ninguém. Aponta às dez o cuco na escada, serra o pequeno tronco o casal tirolês. Afundo um pouco mais os dedos na palha entrelaçada do encosto, partida aqui e acolá. Outrora brilhava dourada, espiga de milho lá no campo além mar. Apoio meu ventre mais rente ao costado, imaginando o calor que já não emana.

Sempre conseguia te pregar uma peça, ponta dos pés, manchando as solas das meias na cera vermelha. "-Ai, que susto!" - virava o pescoço num átimo e depois acabava por sorrir, aquele sorriso bravo de menino, feixe branco de luz do dia na madrugadinha da casa silenciosa. "-Trata logo de ir dormir!" - ralhava, continuando a baloiçar a cadeira, rangido monótono no assoalho arranhado.

Eu fingia subir as escadas e sentava no degrau, oculta pela penumbra do corredor, por uma questão de minutos apenas. Tu logo tiravas os óculos, pousava o livro no colo e ressonava profundo. Ali sabia que podia te chamar para cima, dócil que estarias do sono. Passando o braço em torno do meu pescoço, resmungavas que devia ter terminado de ler o capítulo. "-Tão bom estava, menina. Deixa-me voltar lá!". Assim, toda noite fazia-me dormir. Agora não consigo mais.

As horas são longas tapeçarias inacabadas, o término do capítulo que nunca leste. Balanço o corpo, simulando o rangido querido, fito sem fim a capa de duro couro puído sobre o assento encardido. O casal serra o tronquinho  algumas vezes mais, antes que eu possa dali sair. Despeço-me, então, da penumbra do corredor, do degrau escondido, do menino a sorrir. Ele não se despede de mim, mas sei que mora a essa hora em uma nova casa.

Texto: Patricia Coelho
Fotografia: "Rocking Chair on Porch", por Brandon Allen

balanço



não consigo lembrar se antes esquecia, se era já tarde de algum outro dia. o barro esmaltado estala nos telhados vermelhos, vazios dos passarinhos aninhados.

giro uma outra vez os pés que pendem da rede, alcanço com eles o chão, ganhando novo impulso. quando menina tinha quem o fizesse por mim, bastava chamar um dos tios... "mais forte! muito mais!", sempre pedia.

se um dia caísse do alto, como os adultos supunham iminente, jurava que nem ligava. puxando a barra da saia, exibia orgulhosa o feio ralado do joelho: "não chorei, porque já sou uma mocinha."

gosto tanto que façam por mim, não vou mentir.

agora mesmo queria uma mão que me abanasse gentilmente, sopro de mar no meu rosto. queria também que me trouxesse uma bebida gelada que sorvesse a mim.

a roupa tão branca nem baloiça no pátio do vizinho. a lavadeira leva a mão aos quadris para ralhar melhor com seu menino que tenta meter-se em uma bacia cheia; eu não o condeno por querer. para mim ele é o herói do dia.

Texto: Patricia Coelho
Imagem: Frizztext