
Revirada toda casa e o meu estômago vazio, tão forte o medo que sinto. Nos cantos de velas acesas, tento disfarçar cantando baixinho e cobrindo os espelhos. Ele não vai mais voltar, nunca mais vai voltar. Amanhã não vai comer o doce de que tanto gosta e não vai pular a janela do quarto, fugindo para a cidade no carro que pegou escondido do pai. Eu não vou chorar. Por que, raios, eu fiz essa promessa estúpida? Minha garganta queima com o sal das lágrimas tão difíceis de engolir. "Tudo passa", disse alguém batendo no meu ombro de modo consolador. "É mentira!", queria gritar, ao invés disso a voz foi sumindo... Como eu gostaria de poder fazer agora.
O cortejo fúnebre se alinhando, com seus guarda-chuvas e capas, do jardim ao portão. Passo por eles às cegas, ganhando a calçada inundada da tempestade que envolve meus pés, os calçados encharcados que correm sem direção. Fosse feita de açúcar poderia derreter... O doce que ele nunca mais vai comer. "Guarda um pouco pra mim!", pediu-me ao telefone, "Vou traçar depois do jantar". O prato intocado sobre a mesa, eu fui lá e quebrei, mas o que é que faço com todo o resto? Como é que se quebra o inquebrável?Na claridade efêmera dos relâmpagos, atravesso as ruas desertas da madrugada que se avizinha, para bem longe da tua casa.
Texto: Patrícia Coelho
Imagem: ©Elena Kalis












Mas vem cá heim?! Que narrativa é essa?
Guria, por instantes foi como se eu tivesse perdido alguém que me é muito querido.
Teus textos me surpreendem cada vez mais.
Obrigado, linda.
Então, querido, Luciano... Eu tive esse pesadelo e quando acordei ficou essa sensação, meio misturada com uma perda real que tive. Achei melhor escrever, porque me ajuda a entender.
Eu que agradeço muito por sua gentileza.
Beijos!
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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.