
Eu já senti isso antes e sei exatamente como esse filme termina. Não há mocinho nem bandido nessa história, apenas imagens que seguem projetando-se na sucessiva desordem do meu coração, como as cenas que vão mudando velozes pela janela aberta do carro. O vento gelando meu rosto confirma a previsão de frente fria que fez a moça do tempo, no jornal da tarde.
Não quero me apaixonar, esse amor romântico cafona de doer o cotovelo. Se eu te encontrar... ah, eu sei que assim será. Piso fundo no acelerador, como se pudesse com isso ganhar distância do que eu mais temo. O efeito é tão ao contrário! Quanto mais eu me afasto, mais sinto você se aproximando de mim assim, como uma tempestade ou um tufão: por mais que acelere não se consegue escapar deles. Odeio previsão do tempo, eu penso, desviando de um enorme buraco no asfalto.
O buraco no meu peito é sinal da tentativa malfadada de conter o que não se pode mais. O sinal fechou, ali no meio da faixa, eu sem saber se era melhor prosseguir ou dar uma ré. "Ando meio desligado", no volume máximo, mesmo assim deu para ouvir a buzinada do estressado motorista do ônibus, colado na minha traseira. Uma ponte aérea que nos separa e minha mente a 429 quilômetros daqui, atrapalhando o trânsito da fria noite do Leblon.
Texto: Patrícia Coelho
Imagem: "Teenage", by Julia Fullerton-Batten
Ouvindo: "I've Been Thinking", by Handsome Boy Modeling School + Cat Power












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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.