
"Me passa o saleiro", ele disse sem erguer os olhos, cortando a carne em pequenos pedaços. Coloquei um pouco de sal na palma da mão esquerda, antes de estender o pequeno cilindro prateado, colocando-o bem diante dele. Joguei para trás o pó umedecido (nunca lembro de colocar arroz dentro do pote) por sobre o ombro. Ele não viu, nunca via... já não fazia diferença, por conveniência ou conivência.
Os meus sentimentos invadiam a mesa posta do jantar, como as águas salgadas invadem a costa. Nunca se deve dar as costas para o mar, as ondas que tudo arrastam também trazem para a superfície aquilo que estava submerso. Sou muito temperamental para estar cercada de gente com tão mais temperamento do que eu, gente que ocupa tanto espaço. O cotovelo dele bateu outra vez no meu braço inerte.
O sal jogado entranhou-se nas frestas do assoalho e na sola dos meus sapatos, que rumavam decididos para a porta dos fundos. Ele perguntou se eu levava o casaco quando soltei a maçaneta ruidosamente. A voz parecia muito distante, como sempre parecera, talvez um pouco mais abafada agora. O casaco cobrindo minhas orelhas, alguns trocados no meu bolso e a vida recomeçando nas calçadas cobertas de neve, que logo se derreteria sob o sal.
Texto: Patrícia Coelho
Imagem: Lilya Corneli












Forte isso, de sair, de ir embora, da relação já tão enfraquecida.
Legal como o texto sugere as imagens, o frio, o distânciamento. Seti-os daqui.
Abraço minha linda.
nem preciso dizer como o texto é lindo né? eu consigo imaginar as cenas, a neve derretendo, o casaco... sinto o frio.
beijos e obrigado!
Olá, querido Luciano :)
Então, eu gosto muito de falar sobre essa coisa da relação abandonada, é uma coisa que está na minha sistêmica e que tento expurgar ou esgotar dentro de mim.
Bom que você conseguiu sentir o frio e o distanciamento sugeridos pelo texto. Absolutamente adoro quando isso acontece, parece que cumpri uma missão :)
Beijos! Obrigada.
Ah, Enrico, fico tão feliz com teus comentários :)
Você só consegue imaginar as cenas com precisão porque tem sensibilidade para isso.
Eu que agradeço sua visita e o carinho. Beijos!
O sal na bíblia possui uma simbologia extraordinária, ele serve para ser o diferencial e ao mesmo tempo ele deve ser moderado para manter o equilíbrio, e assim ficar tudo certo. Cada indivíduo tem a sua personalidade, somos diferentes, mas essa diferença não pode ultrapassar a privacidade do outro. O mar possui sal suficiente para satisfazer a humanidade, mas não o bastante para prejudicar os seres vivos que vivem no fundo mar. O sal faz a diferença, mas quando ele é moderado. O mar sempre nos trás algumas respostas...
Bjs.
massa! fico imaginando as cenas... e o belo final.
buenas!
Olá, querida Karlla! Que lindo e rico o teu comentário, veio como uma contribuição ao texto. Obrigada, eu adorei. Beijos!!
Buenas, Tarcísio! Coisa boa saber que a tua imaginação foi aguçada :) Valeu! Saudações.
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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.