Contornei a rotatória e entrei pela mão dupla daquela mesma rua que me levara até ali. Buzinei na traseira de um motorista distraído, com suas crianças, dúzias de sacolas de supermercado e o celular, que ele segurava, desajeitadamente, entre o ombro esquerdo e a orelha. O domingo de sol fazia arder o asfalto, a areia e a minha garganta seca. Coloquei a garrafa entre as coxas e girei a tampa, derramando água gelada goela abaixo.
No sinal o menino, o malabares e sua cara de fome. Eu fiz sinal que não queria sua caixinha sobre o meu capô e que não, não iria dar nenhum dinheiro a ele. Se desse dinheiro a cada um deles, eu trabalharia só para sustentá-los, pensei, aumentando o volume do rádio. Levei uma fechada de uma perua importada, made in Japan, que saiu - sem nem dar seta - de uma fila dupla que começava na esquina e seguia até a porta do restaurante descolado do momento, onde manobristas agitavam chaves e desfilavam uniformes muito quentes para o sol do meio dia.
Um guardinha solitário anotava muitas placas, logo adiante, imerso em seu ofício de coibir estacionamentos irregulares e remediar pequenos acidentes. Vejo ele apequenar-se no retrovisor, à medida que avanço - dentro do limite da velocidade permitida - pela avenida principal, ladeada por ônibus de turistas, kombis de ambulantes e toda sorte de maus motoristas por metro quadrado que podem caber em um domingo. No meu porta-malas a cadeira de mil poses e o sombrero colorido balançam tranquilos à espera do seu lugar ao sol.
Texto: Patricia Coelho













Que saudades de ler as tuas narrativas, Patrícia. Imaginei toda a cena se desenrolando, como se eu próprio estivesse ao volante. Só tenho de te agradecer pelas palavras e pelas imagens que me foram sugeridas por elas.
Bj carinhoso em ti.
Não fica tanto tempo longe não, menina.
Sempre em trânsito. Tenho lá minhas manias em também observar e notar as diferenças tão sutis... e ao mesmo tempo, tão nossas.
:)
Beijo!
Ei, querido Luciano! Prometo tentar ser mais assídua. Minha vida está meio de pernas pro ar, mas logo eu tomo prumo :)
Obrigada por ser tão generoso comigo.
Grande beijo e um ótimo fim de semana!
Que alegria ver você aqui, Marilyn! As diferenças sutis são as que realmente me encantam :)
Beijos e obrigada.
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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.