Thursday, March 31, 2011

Expresso

 
Carrego bem dentro uma raiva contida que me faz tremer silenciosamente. Ela vem do medo absurdo, e inconfesso, que sinto; ele eu já não sei de onde vem. Feito fosse aquele pesadelo recorrente do qual sempre me esqueço ao despertar. Ressinto-me com a luz da manhã que, sem nenhuma cerimônia, invade a janela do meu quarto e me tira da cama. Lá fora o verão, tomando as calçadas com seus banhistas, turistas, trombadinhas e um calor de todos os graus.
Desço os degraus de ardósia, atrás de algum café decente que me diga bom dia. O porteiro me disse, só que eu não o vi.
Como posso mudar a visão das coisas que foram veementemente negadas? Coisas que não quis enxergar, mesmo quando elas se revelavam, na mais completa claridade. Ainda tenho os mesmos olhos ao acordar. Uma pessoa talvez questione sua lucidez quando o que lhe for dito como verdade não for correspondente àquilo que vê. Há que se destruir os mitos, há que se matar os heróis.
Viro a esquina e entro na padaria, em busca de sonhos recheados que me devolvam um pouco do conforto perdido.
Papai nem sempre me protegeu. Mamãe não foi de todo a fonte de nutrição. As pessoas que mais amamos são isso aí: pessoas. O amor faz as expectativas elevadas e são essas expectativas que atrapalham tudo.
Meu café só chega depois do segundo sonho que, em todo seu esplendor de creme e açúcar cristal, eu desfruto.
Sábios antigos atestam: executar a ação livre do apego ao resultado, é a solução. Por gerações eles foram preparados para pensar assim. Eu, por minha vez, nasci a fórceps; não queria vir a esse mundo por vontade própria.
Desisto da segunda xícara antes da metade e encomendo meia dúzia de sonhos para o fim da tarde. Aceito, de má vontade, as balinhas de troco, estendidas a mim pelo caixa sorridente. Afinal, a fila tem que andar.
Desvio dos ambulantes e seus badulaques para todos os gostos, espalhados pelas abalroadas calçadas de domingo. Lembro meu quarto, em toda sua penumbra e temperatura amena, aquela tentadora ideia da acomodação, bastante parecida com a covardia. Então esquivo da colisão iminente contra um senhor truculento, arrastando seu cão arfante avenida acima, depois levo a mão ao bolso à procura de um trocado para o menino no sinal. Antes de atravessar entrego a ele as moedas lambuzadas pelas balas, agora derretidas.
Alugo a última cadeira, encaixando-a no espaço restante de areia banhada pelo sol a pino. Do meu lugar, calculo o melhor percurso para chegar ao mar, muito além dos guarda-sóis, salva-vidas, piscinas de plástico e castelos em construção. Planejo um mergulho de uma só vez, a despeito de possíveis choques térmicos e placas sinalizando “perigo”. O primeiro impacto é sempre enregelante. Por outro lado, depois da arrebentação, há calmaria a perder de vista.
À distância, bem no fundo, as coisas parecem todas tão miúdas.

Texto: Patrícia Coelho
Fotografia: annia316 @ flickr

1 Marolas:

  1. A minha coragem só é manifestada quando estou com medo.Texto lindo e profundo como o mar.
    Beijos.

    Katia Oliveira

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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.