Friday, December 23, 2011

balanço



não consigo lembrar se antes esquecia, se era já tarde de algum outro dia. o barro esmaltado estala nos telhados vermelhos, vazios dos passarinhos aninhados.

giro uma outra vez os pés que pendem da rede, alcanço com eles o chão, ganhando novo impulso. quando menina tinha quem o fizesse por mim, bastava chamar um dos tios... "mais forte! muito mais!", sempre pedia.

se um dia caísse do alto, como os adultos supunham iminente, jurava que nem ligava. puxando a barra da saia, exibia orgulhosa o feio ralado do joelho: "não chorei, porque já sou uma mocinha."

gosto tanto que façam por mim, não vou mentir.

agora mesmo queria uma mão que me abanasse gentilmente, sopro de mar no meu rosto. queria também que me trouxesse uma bebida gelada que sorvesse a mim.

a roupa tão branca nem baloiça no pátio do vizinho. a lavadeira leva a mão aos quadris para ralhar melhor com seu menino que tenta meter-se em uma bacia cheia; eu não o condeno por querer. para mim ele é o herói do dia.

Texto: Patricia Coelho
Imagem: Frizztext

2 Marolas:

  1. Vc conseguiu dar o tom de nostalgia presente, de superposição sensível de tempos que roça a eternidade (como o tecido na pele...)

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  2. que lindo comentário, querido Antonio! :) muito obrigada pela sensibilidade e carinho. beijos!

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Prenda a respiração... Aí vem a próxima onda.